Até o momento de minha sofrida leitura, encontrei em Jó um terceiro livro presente na Bíblia o qual achei interessante. Até agora só havia gostado de Gênesis e Tobias. Mas em Jó todos os elementos de enredo presentes e que giram em torno do personagem servem apenas para um único propósito que é o de proporcionar um debate. Olha só! A Bíblia fornece um momento de questionamentos.
Conta a história que Jó era um homem bom, submisso a Deus e que o agradava. Aquela coisa que vocês já conhecem da submissão a Deus, de ser temente porque Deus tem que ser temido e não amado e aquela idolatria toda. E então, através de um jogo irresponsável com o Diabo, (porque aqui Deus parece muito com aquele menino de Números) e digo irresponsável porque Deus gosta de brincar com a vida de seus humanos, Ele aposta que Jó, por mais que sofresse males sob a influência dessa excelente companhia de jogo, não deixaria que a sua fé sucumbisse. Assim, Jó, o pobre Jó que tanto amava Deus, tem seus filhos mortos, seu rebanho roubado e ainda contrai uma doença. Jó é humano e então se revolta como se revoltaria qualquer aquele que cai em várias desgraças.
Então, alguns velhos amigos e conhecidos vão a seu encontro para consolá-lo. Temos a partir daí um debate interessante em que Jó contra-argumenta as longas falas de seus colegas com mais questionamentos pelo fato de ter recebido tantas desgraças quando era na verdade uma pessoa que não as merecia. O teor da fala desses outros pauta-se sempre naquela velha idolatria a Deus que deve ser aceita sem questionamentos ou compreensões, como se a o homem não fosse permitido pensar e construir seus próprios pensamentos. O que na verdade é uma realidade típica de hoje e presente na vida de muitas pessoas ditas religiosas: ausência de pensamento e só aceitação. Enfim, não há lógica nisso para esse que vos escreve. Jamais poderei assimilar que Deus tenha nos criado para esse propósito. Ou melhor dizendo, para essa falta de propósito.
O ponto chave é o fato de que os questionamentos de Jó são sinceros e então, como nenhuma das repostas o satisfaz, o próprio Deus surge para respondê-lo. Fiquei contente e emocionado acreditando que Ele daria novas resposta, coerentes, mas isso não acontece. Para minha frustração, Deus traz uma resposta de mesmo teor. A única diferença é que sua presença se torna algo meio que consolador para o coitado do Jó. [Jó 42. 5-6] "Eu te conhecia só por ouvir dizer; mas agora meus próprios olhos te veem. Por isso, eu me retrato e me arrependo, eu me retrato sobre o pó e a cinza".
É necessário experimentar da "paciência de Jó" pra continuar lendo isso, pois o livro não traz nada resolutivo. Até traz discursos coerentes sobre a maldade, o que considero algo bom, mas pra isso você precisa ser um fiel hipócrita e ignorar todas as maldades praticadas antes, a mando de Deus. Enfim, mas só pelo fato de ter dado abertura para o questionamento que é a razão primeira da evolução espiritual e intelectual, já achei super válido. Ah, e depois de tudo isso, do sofrimento e desgraças, a bênção de Deus para com Jó é nada mais que fartura econômica. Uma recompensa pela sua paciência.









