sábado, 21 de junho de 2014

Leitura de Números

O livro de Números vai relatar a chegada dos israelitas à terra prometida após os 40 anos de peregrinação pelo deserto. Contudo, creio que tal livro poderia ser resumido na seguinte frase: "Aos 40 anos após a fuga do Egito, Aarão morre, o SENHOR ordena um massacre e eles chegam a Canaã". Pronto!

É o livro mais monótono até então. Ele traz uma série de relatórios que não consegui captar o objetivo em discorre-los. Não há qualquer ensinamento edificador a não ser enumerar a grandiosidade de tributos, oferendas, jornadas e sacrifícios a um Deus que impõe o seu próprio merecimento. E é muita imposição! Creio para se falar de humildade tem que se ser, antes de tudo, humilde. E aqui as pessoas são tratadas como mercadoria. (Nm 3. 13) "Eles são meus. Eu, o SENHOR". Neste livro se dá continuidade às terríveis imolações que fariam qualquer veterinário sofrer de horríveis pesadelos. Continuo sem compreender qual é a lógica. Se Deus havia criado o mundo e tudo que nele existia, qual o sentido da satisfação dele nesses rituais sangrentos de morte dos animais? Se ele foi capaz de destruir tudo, uma vez, através do dilúvio, que prazer sádico é esse de queimar bois e ovelhas numa fogueira? Penso que há algo de errado aí. Talvez apenas uma dose de raciocínio. Eram imensos e numerosos esses holocaustos. O título do livro certamente é "Números" em razão específica do capítulo 7 e do 29 que relatam todos os tributos na forma de sacrifícios, sangue, vísceras e gorduras. Verdadeiras manadas levadas ao sacrifício em nome de Deus para queimarem na fogueira. São estas palavras, "um sacrifício consumido pelo fogo, de suave odor ao SENHOR", repetidas inúmeras vezes desde o livro de Êxodo. Há uma passagem no capítulo 11 em que o povo está descontente com Deus e com fome, pois não há carne para comer. Coitados! Foram obrigados a queimar tudo...

Em Números Deus se revela excessivamente tirano; de uma obstinação quase que infantil porque as coisas não aconteciam da forma como ele queria. Moisés aí acaba sendo, inclusive, mais sensato que o próprio Deus e o enche de elogios como quem mima uma criança para que esta considere o seu contra-argumento. Transcrevo aqui na íntegra tal diálogo:

(Nm 14. 11-19) E o SENHOR disse a Moisés: "Até quando este povo vai desprezar-me? Até quando vai recusar-se a crer em mim, apesar de todos os sinais que fiz no meio deles? Vou feri-los de peste e deserdá-los. De ti, porém, farei uma nação maior e mais forte do que eles". Moisés respondeu ao SENHOR: "Mas os egípcios sabem que de seu meio tiraste este povo com teu poder, e o dirão aos habitantes desta terra. Eles sabem que tu, SENHOR, estás no meio deste povo; que tu, SENHOR, te manifestas a ele face a face; que sobre eles vela tua nuvem; que de dia precedes numa coluna de nuvem e de noite, numa coluna de fogo. Se, pois, nações que ouvirem tais notícias a teu respeito comentarão: 'O SENHOR foi incapaz de introduzir o povo no país que lhes prometeu, por isso os massacrou no deserto'. Portanto, agora é que o meu Senhor deveria manifestar a grandeza de sua força, como tu mesmo disse: 'O SENHOR é paciente e misericordioso; suporta a maldade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração'. Perdoa, pois, a maldade do povo conforme tua grande misericórdia, da mesma forma como o suportaste desde o Egito até aqui".

No capítulo seguinte há um relato terrível em que Deus comanda um apedrejamento a um homem porque este estivera catando lenha num sábado, dia em que o trabalho é condenado. Uma ditadura religiosa. E sem contar a pregação de várias leis machistas. Falocratas ao extremo, onde a palavra da mulher só tem valor se for de acordo a do homem. Enfim, este livro me deu um pouco de sono. É tudo tão exagerado que chega mesmo a ser enfadonho e indigno de qualquer crédito.

domingo, 8 de junho de 2014

Leitura de Levítico

Anseio por leituras ao longo deste livro que me tragam pelo menos a sensação de todas as maravilhas prometidas por aqueles que dizem "esta é a palavra de Deus". Se no decorrer do Antigo Testamento, a leitura manter seu teor repreensivo, vou desejar, ou já desejo, que o Novo mude a sua formatação do que seja Deus. Levítico começa fazendo uma série excessivamente detalhada de rituais de sacrifícios que achei sangrentos por demais. Chega inclusive a lembrar uma outra mitologia - a grega. Fico tentando imaginar que para quem escreveu isso, quais deveriam ser os parâmetros numéricos da manada de bois e carneiros dos israelitas. Sério... São muitos sacrifícios e de uma forma que se qualquer pessoa de hoje, católica (uma vez que a maioria dos católicos nem sabem o que há na Bíblia, pois não leem), os assistissem, a exclamação seria: "Isso não é de Deus!".

O livro traz ainda os detalhes da ordenação dos sacerdotes que irão conduzir aquela fé e de seus votos de fidelidade às práticas que supostamente constituiriam sua religião. Holocaustos, oblações, comunhões... Igualmente inimaginável tudo o que eles deveriam fazer. Muito diferente de uma missa dos dias de hoje.

Mas bem, uma parte que achei interessante foram as instruções entre os capítulos 11 e 14 que tratam da forma como as pessoas poderiam lidar com as doenças. E de fato, se você ler com atenção, aquilo que eles denominam como "abominação" está relacionado a algo impuro. Mas impuro não na forma anti-sacra, mas como aquilo que se diz anti-higiênico. Atribuo a isso, um erro, talvez, de tradução.
Mas no fundo mesmo, sabemos que é antes de tudo, um erro de interpretação. Já tinha ouvido falar sobre isso no filme "Orações para Bobby" (Prayers for Bobby - título original), cuja protagonista é interpretada pela atriz Sigorney Weaver, uma mãe que questiona perante a igreja o por quê de considerarem a homossexualidade do filho como "abominação". Um exemplo interessante: (Lv 11. 10) "Mas, dentre os animais que povoam as águas dos mares e dos rios, e dentre os seres vivos que aí houver, detestareis todo animal que não houver barbatanas e escamas. Serão para vós abominação." Isso significa dizer que a homossexualidade está no mesmo pé de igualdade que aquele que degusta camarão? E se não estiver, então continua-se a se pregar como pecado aquilo que ainda é conveniente. Sempre soube disso! A aversão ao homossexual é mais cultural que religiosa. O ser humano tem medo de tudo aquilo que é diferente. Mas enfim, o capítulo elucidou meus pensamentos quanto ao nível de conhecimento que se possuía em ciências médicas. O leproso, por exemplo, e tudo o que ele tocasse era afastado da sociedade por períodos de dias. Era muito cruel e desumano, mas ao mesmo tempo, compreensível, pois, uma vez que não se tinham conhecimentos sobre como tratar a doença, a medida era eficiente para que a hanseníase, uma doença infecto-contagiosa, não contaminasse as outras pessoas. Isso abre um pressuposto enorme para inserir dentro daquela realidade, que, este nível de conhecimento era o mesmo tomado por base para as outras regras impostas por aquela sociedade. Será que evoluímos muito?

Levítico nada mais é do que um relato histórico do que se passava com Moisés, Aarão e seu povo após a fuga do Egito. Deus ditava algumas regras para eles, mas não quer dizer que estas regras deveriam ser obedecidas até os dias de hoje. Tanto que casar com duas irmãs passou a ser um problema a partir daí. Antes disso, em Gênesis, Jacó teve duas esposas irmãs e nem por isso foi repreendido. A escravidão hoje em dia é condenada em todo o mundo, enquanto na Bíblia era algo natural. Relacionar-se sexualmente com escravas era aceito sem problemas; mesmo o homem já possuindo uma esposa. O problema era relacionar-se com a escrava de outro. Relacionar-se com animal também era abominação e o bicho teria que ser sacrificado. Me pergunto que culpa poderia ter o pobre do animal. E coitada da mulher que estivesse menstruada. Sem comentários!

Mas o capítulo 19 trouxe finalmente coisas que considero boas e coerentes, como não roubar, não enganar o cego, o surdo, não oprimir ou extorquir, não cometer injustiça, não propagar calúnia, não conspirar contra a vida de alguém. Era esse o tipo de coisa que eu esperava encontrar na Bíblia quando ouvia alguém dizer que este seria o livro a quem as pessoas deveriam seguir. Céus! Deus é caracterizado em suas qualidades como um ser insensível, severo e que deveria ser obedecido, e ele ainda se dizia santo. Acredito em Deus com todas as minhas forças, mas sei que ele não é assim.