quinta-feira, 10 de julho de 2014

Leitura de Deuteronômio

O livro de Deuteronômio trata de uma série de releituras sobre leis supostamente sagradas e de certo teor impositivo. Com a chegada do povo de Israel à terra prometida, em algumas cidades ainda seria preciso tomar o território do povo que ali já habitava. Eles chegaram, mas a Canaã ainda não pertencia a eles. De modo que se fez necessário revisar as lições ensinadas e impostas pelo SENHOR para que servissem como fonte de inspiração ou até mesmo justificativa para as crueldades que este povo de Deus iria executar contra aqueles com quem se defrontariam. Ao passo que há bastante revisão de coisas já ditas em livros anteriores, Deuteronômio ainda complementa algumas questões jurídicas e religiosas com exemplos bem específicos e em certos momentos até bem bizarros. Enfim... O que compreendi foi que Deus os preparava para uma guerra bem sangrenta. Um exemplo disso se vê neste trecho: (Dt 3. 3) "E o SENHOR nosso Deus entregou também em nossas mãos Og, rei de Basã, com todo o povo, e nós o derrotamos, sem deixar nenhum sobrevivente." Outro: (Dt 18. 22) "Se o profeta falar em nome do SENHOR, e o que disse não acontecer nem se realizar, então é coisa que o SENHOR não disse. O profeta falou com presunção! Não tenha receio de matá-lo!" 

Contudo, há um momento de sensatez que não tenho competência para julgar se justo ou não. No capítulo nove é relatado que, das justificativas que levaram à decisão do Senhor Deus em expulsar daquelas terras o povo que lá habitava, seria não pela justiça ou imparcialidade do povo de Israel, mas em razão das maldades praticadas por essas nações que lá viviam.

Bem, nesse livro é revisado, por exemplo, Os Dez Mandamentos, a intolerância religiosa perante outras crenças, as normas alimentares caracterizadas como abominação, o apedrejamento daqueles que não servirem em holocausto o gado sadio, a dominação da mulher como objeto sexual e passível da poligamia masculina etc.

1- Sobre a intolerância religiosa, há muita contradição, pois se Deus afirma que ele é único e superior, porque cultivar então tanta ira contra quem vai servir a um outro deus? Não percebo divindade neste arranjo, mas apenas um ciúme antrópico. Deus é muito inseguro. Ele diz que se uma mãe perceber o filho dizendo que vai adorar a outro deus, ela deve ser a primeira a entregá-lo à morte. Eu compreendo que se é tão perigoso assim, então, na visão dele, talvez deva existir de fato outros deuses.
2- Sobre as normas alimentares caracterizadas como abominação, termo este empregado também anteriormente para condenar práticas de má compreensão social, ele traz uma listagem de todos os animais considerados como pecado o usufruto de sua carne e dentre eles, vejam só, está presente o coelho, o porco, o avestruz etc. Mas sobre os que habitam a água nenhum daqueles que não possuem barbatanas e escamas. Podemos considerar aí, por dedução, o polvo, a lula, o caranguejo, o camarão etc. Por que será que não vejo nenhum pastor ou nenhum padre condenando aqueles que se alimentam de tais carnes?
3- Sobre a dominação da mulher, sinto muito desconforto quando leio tais horrores na Bíblia e ainda ter de engolir que tais pregações são da ordem de Deus. É tanta injustiça que chega a ser bizarro. Como exemplo, as penitências. Se um homem caluniar uma mulher dizendo que esta não é virgem depois do casamento, ele pagará uma multa em moedas se estiver mentindo e ela deverá ser apedrejada se a acusação for verdadeira. Se um homem abusar sexualmente de uma mulher não comprometida, ele deverá pagar uma quantia ao pai da moça e deverá casar-se com esta. Se um homem morrer e deixar uma esposa sem filhos, o cunhado irá tomá-la para esposa para nela fazer um filho e dá a este o nome do irmão morto. E a pior, mais bizarra, insensata e cruel de todas: (Dt 25. 11-12) "Se dois homens estiverem brigando, e a mulher de um vier em socorro do marido, estender a mão e agarrar o outro pelas partes vergonhosas, tu lhe cortarás a mão sem dó nem piedade".
4- Uma coisa que prestei atenção e que me chamou bastante atenção neste livro foi quanto ao capítulo 28 que relata as Promessas de Benção a quem obedecer a Deus e as Ameaças de Maldição a quem desagradá-lo. É uma imprecação veemente que ao mesmo tempo em que é instrutora, chega a ser ingênua e maldosa. Mas o fato mais interessante é que Deus promete mais maldições que bençãos ao seu povo. Não há contestação religiosa que derrube o meu entendimento de que o Deus colocado neste Antigo Testamento seja um ser tirano. Promessas de Benção - 31 linhas; Ameaças de Maldição - 126 linhas.

Enfim, é um livro de revisão e complementação. Quanto a história, eles conquistam alguns territórios, dizimam nações, matam pessoas e ao final, temos a morte de Moisés que os conduziu desde Êxodo e passa então a liderança para Josué, seu sobrinho.

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