domingo, 24 de agosto de 2014

Leitura do Primeiro Livro dos Reis

Decepção! Sinceramente, a Bíblia é tão defendida como um livro bom, mas até agora pouco vi disso. Gostaria do fundo do meu coração poder fazer anotações boas sobre o conteúdo deste livro, mas não é exatamente o que tenho encontrado.

O Primeiro Livro dos Reis vai relatar o reinado de Salomão sobre Israel, a sua suposta sabedoria divina e os miseráveis reis que o sucederam. Mas Salomão tão bem quisto e admirado me decepcionou profundamente. Primeiramente, pensei que ele fosse bom, mas vejam só. Como o primogênito de Davi havia morrido, o rei prometera então a mãe de Salomão que este o sucederia, mas nesse intervalo outro filho de Davi proclamou-se rei com o apoio de um militar e sacerdote do reino. Mas Salomão foi quem consagrou-se rei de fato. Em um primeiro momento havido sido até misericordioso perante a pretensão do irmão, mas logo após ordenou a sua morte, a do militar e a do sacerdote. Cadê a misericórdia divina? Que o expulsasse do reino, mas mandar matar! Salomão foi calculista e agiu desprovido de bons sentimentos. Todo o conteúdo do segundo capítulo lembrou-me a crueldade e as ações premeditadas quando se tratava da sucessão ao trono no império romano. Mas enfim, diz-se que a Bíblia é a palavra de Deus...

Contudo, antes de eu lançar nova crítica, falemos sobre o pedido mais importante que Salomão faz a Deus e este pede: (1Rs 3. 9) "Portanto, dá ao teu servo um coração atento para julgar o teu povo e discernir entre o bem e o mal. Pois quem poderia governar este teu povo tão numeroso?" Nossa! Finalmente um pouco de coerência com aquilo que se preceita ser Deus. E este pedido, muito bonito, é atendido. Entretanto, no mesmo capítulo há um momento em que esta suposta sabedoria é colocada a prova dando a todos os expectadores uma demonstração da grandiosidade da sabedoria de Salomão. Mas o que eu percebi nada tinha de parecido com isso.

Lembro-me quando criança quando ouvi a primeira vez esta história contada pelo Mons. Cleano no domingo pela manhã na missa das crianças. Contava ele o quanto era divina a sabedoria de Salomão e quanto estava embevecida pela benção de Deus quando diante de duas mulheres que alegavam ser a mãe de uma criança e que recorreram ao rei para que uma decisão fosse tomada sobre quem ficaria com o bebê. Acontece que durante a noite o filho de uma delas havia morrido e esta mãe trocara as crianças para que ficasse com a viva. Contudo, a outra mãe alegava a mesma história atribuindo a culpa à mãe oposta. Então, não se sabia exatamente quem seria a mãe legítima da criança viva. Assim, Salomão ordenou que a criança fosse partida ao meio e nesse momento a legítima mãe revelou-se quando implorou que isso não fosse feito e que a criança fosse cedida para a outra. Até aí, tudo bem! Oh grande sabedoria divina fajuta! Se a outra tivesse permanecido calada, eu compreenderia que Salomão foi sensível ao perceber que o desespero da mãe legítima aflorara-se naquele momento e ao mesmo tempo se sacrificava para ceder o filho. Perguntou-me então, por que esses contos não são narrados na íntegra? Eis o que a ilegítima falou: (1Rs 3. 26) "Nem para mim, nem para ela: cortai-a em dois pedaços". Por favor, convenhamos, não é necessário nem mesmo da graduação em Serviço Social para perceber que esta era uma desequilibrada. Atribuir a decisão de Salomão à sabedoria divina é subestimar demais o poder de Deus. Oh decepção!

Tirando isso, o livro relata as extravagâncias de Salomão sacrificando animais, construindo altar de bronze, de ouro, provendo sustento para setecentas esposas e trezentas concubinas. Duvido que isso seria louvável se fosse uma mulher com setecentos maridos e trezentos amantes! Teria sido apedrejada logo no segundo homem. Isso não incomodava a Deus, mas o fato de Salomão ter buscado uma deusa de nome Astarte, isso enchia de cólera ao SENHOR por conta de um ciúme muito suspeito. Só me leva a crer, na verdade, que de fato ele não era o único. Talvez nem mesmo se trate do mesmo deus presente no segundo testamento. Sei lá... Há uma passagem quase ao final do capítulo 18 em que Deus, através do profeta Elias ordena que se capture os adoradores de Baal e os degolem. Em razão de que mesmo esse Deus é tão superior ao demônio Baal? Mais uma vez, sei não. Mas continuo achando revoltante o fato de a Bíblia ser nomeada enquanto "Palavra de Deus".

Findando o reinado de Salomão o livro relata uma série de reinados infelizes de vários reis que desagradaram a Deus e que tiveram destinos miseráveis e impiedosos em Israel.

sábado, 9 de agosto de 2014

Leitura do Segundo Livro de Samuel

Antes de escrever esse post eu fiquei uns dois dias sem saber exatamente o que iria dizer sobre um livro no qual toda a história passou desapercebida. Desapercebida no sentido de que não me transmitiu nada de interessante. Contudo, eu consegui formular uma ideia. Ainda não li nada sobre o rei Salomão, mas sei que este foi importante. Ele é mencionado diversas vezes pelos cultos religiosos que acontecem por aí. Entretanto, os dois livros de Samuel tratam em peso sobre a história do rei Davi que seria o rei de Israel que antecedeu Salomão. Então, penso que estes dois livros serviu apenas para ilustrar o que supostamente teria acontecido antes de Salomão - nada mais que isso. 

Na minha percepção, Samuel I e II são livros vazios cuja história não apresenta nenhuma evolução para o povo de Deus e nem muito menos de forma literal para os escritos. Acho que poder-se-ia ter começado direto da parte que cabe a Salomão, já que a história começa mesmo pelo estribilho "Era uma vez...".


Mas sobre a história, Davi é consagrado rei em Israel e após isso ele tem cada um de seus seis filhos com uma mulher diferente (essa cultura não é nossa e muita gente que prega a Bíblia não se toca que isso aconteceu numa região árabe e absolutamente em nada tem a ver com o nosso país). Davi conquista Jerusalém, conduz a arca da aliança para lá, promove-se uma série de outras guerras por razões religiosas, guerras essas que até hoje acontecem por lá. O rei Davi comete alguns pecados também, que a meu ver são até mais naturais do que outros que a Bíblia ignora até esse ponto, justamente em razão de ser uma época diferente, de leis diferentes e de compreensões diferentes, mas tudo bem (desisto de fazer que as pessoas compreendam isso!). Esse rei eleito por Deus tinha muitas concubinas, por exemplo, mas enfim... Acontece ainda um crime de incesto com dois filhos de Davi. O primogênito morre e Deus dá opção de escolher três desgraças em seu reino (2Sm 24. 12-13): 

"Vai dizer a Davi: Assim fala o SENHOR: Eu te proponho três alternativas; escolhe uma delas, e eu farei acontecer! Gad foi falar com Davi e lhe disse: "Queres que sobrevenha ao país uma fome de sete anos, ou queres fugir durante três meses diante do inimigo que te perseguirá, ou preferes três dias de peste no país? Agora reflete bem na resposta que devo levar a quem me enviou".  Nossa que Deus bondoso! Davi escolheu a terceira.

E é isso, o Segundo Livro de Samuel.

sábado, 2 de agosto de 2014

Leitura do Primeiro Livro de Samuel

A leitura deste livro segue uma linha de narrativa diferente dos livros anteriores, uma vez que não dá seguimento a nenhuma história antecessora. A primeira frase, por exemplo, no primeiro versículo diz "Era uma vez um homem de Ramatain". A partir dessa introdução pitoresca ele vai relatar a história desse Samuel, que assim como Moisés ou Josué seria um sacerdote capaz de receber as orientações direto de Deus para o seu povo. História essa que é contada desde a sua infância e que, a medida em que vai sendo narrada, vai agregando outros temas ainda mais importantes que o dele. A participação de Samuel fica muito subjetiva no livro, de forma que, a história de outros personagens se tornam mais importantes que a dele próprio.

Os outros personagens que se destacam são Saul, um moço que por intermédio da inspiração de Samuel é nomeado rei de Israel e o outro se chama Davi, o famoso Rei Davi que matou Golias e que é representado pela arte em obras como a de Michelangelo ou a de Caravaggio.

Até o ponto em que conhecemos a história de Saul, o referido livro não me chamou a atenção em nenhum momento - uma história vazia sem qualquer detalhe que compreenda um ensinamento religioso, nem de bom, nem de mau. Contudo, as atrocidades reaparecem no capítulo 15 quando Saul ordena uma guerra sem o consentimento de Samuel e de novo vem aquela história de "extermínio do povo, passando-o ao fio da espada" (1Sm 15. 8). A partir desse momento Samuel diz a Saul que ele fora rejeitado por Deus em razão de tal imprudência. Entretanto, o próprio Samuel também executa uma morte cruel, que aos olhos da Bíblia se faria necessária e até sob o consentimento de Deus, uma vez que seria uma sentença por um crime, mas que é aplicada a meu ver, mais como uma vingança. (1Sm 15. 33) "Samuel disse: Como tua espada privou de filhos as mulheres, assim entre as mulheres seja privada do filho a tua mãe! Em seguida Samuel cortou Agag em pedaços na presença do SENHOR em Guigal."

Desse ponto em diante, surge Davi, filho caçula de Jessé, um moço de caráter honrado e que prometeria ser o novo rei de Israel. Tal fato (o de ser o novo rei) incomoda por demais Saul que no decorrer de todo o livro tenta matá-lo sem sucesso. Mas seu destaque maior se dá para a história por Davi conseguir, quando nenhum se atreveu, vencer o gigante Golias. Um soldado filisteu e de um povo inimigo de Israel. Tal feito é bem retratado neste vídeo, por exemplo, produzido pela TV Record.


No decorrer de todo o livro em que Davi participa, este se revela inteiramente bom e honrado. É muito bonita a cena em que ele prova para Saul que teve todas as chances de matá-lo e que não procedera de tal maneira por não acreditar que esse seja o caminho para a paz. Porém, noutro ponto, um fato me chamou bastante a atenção, pois não compreendi bem a lógica das escrituras. Há um espírito mau da parte de Deus que se apossa de Saul para compeli-lo ao ódio por Davi. Mais de uma vez! Como assim? Deus manipulava o sentimento de Saul? Um exemplo: (1Sm 18. 10) "No dia seguinte, o espírito mau de Deus tomou conta de Saul, de modo que ele teve um acesso de fúria na sua casa." Leiam e tirem suas conclusões, pois isso acontece pelo menos três vezes. 

Enfim, o livro termina com a morte de Saul frente a uma outra guerra. Contudo, considerando os achados, encontrei algo bom e coerente com aquilo que acredito ser Deus. Um ensinamento muito bonito está escrito em 1Sm 16. 7. O mesmo diz: "Deus não olha para o que as pessoas olham: elas olham para as aparências, mas o SENHOR olha para o coração." Só que no meio de tanta morte em nome de Deus, até agora o antigo testamento só me tem revelado um Deus confuso, contraditório e incoerente.

sábado, 26 de julho de 2014

Leitura de Juízes e Leitura de Rute

Sobre a leitura do primeiro, se eu tiver compreendido bem, ficou entendido para mim que após a morte de Josué, o povo de Israel ficou sem a presença de um líder religioso e portanto, baseado naquilo que eles possuíam como instrumento de lei, elegeram-se, por um longo período, as pessoas que executaram aquilo que estava instrumentalizado. Ou seja, juízes nomeados pelo povo para supervisionar a ordem e aplicar e executar a lei de Deus.

Como que para provar a força da lei de Deus, é injetada intencionalmente na história, (pois não consigo acreditar em um povo tão volúvel assim) certas mudanças de comportamento que ao longo dos livros anteriores foi provado, repassado e revisado de todas as formas. Um exemplo? O povo se esquece de Deus e vai cultuar outros deuses. (Da minha parte, nada contra!) Mas isso só está monotonamente acrescido na história como que para ter o que julgar ou justificar a execução das severas penas impostas por um Deus de cólera.

Foi um livro desnecessariamente longo e que pouco acrescentou. Com exceção que neste mesmo é narrada uma das fábulas que mais renderam filmes e séries para a TV, que foi a estória de Sansão e seus cabelos mágicos. Enfim, o livro demonstra por A + B que o povo de Deus é um povo fraco e sem fé.


Para história, acontece de um julgamento provocar a ira da legião de Benjamin (uma das doze tribos de Israel) e por conta disso, desencadeia-se uma nova guerra, agora entre irmãos. O povo de Benjamin é praticamente dizimado, restando poucos homens, mas os anciãos, no sentido de recuperar aquela tribo, fazem a seguinte orientação em relação ao uma região próxima: (Jz 21. 20-21) Mandaram, pois, dizer ao benjaminitas: "Ide emboscar-vos nas vinhas. Quando virdes as moças de Silo saindo para tomar parte nas danças, saireis das vinhas e cada um raptará uma mulher para si dentre as moças de Silo. Em seguida ireis a terra de Benjamin.(...)"

Mais uma vez a mulher como ser passivo da vontade dos homens. É revoltante!

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Sobre a leitura de Rute, coloco nesta mesma postagem em razão de ser um livro bem curto, compreendido em apenas 4 capítulos, mas que traz um história que finalmente expõe uma demonstração de bondade e gratidão.

Rute era uma das noras de Noemi, uma mulher que havia migrado com esposo das terras de Israel numa época de fome no país. Em Moab, terra para a qual havia migrado, Noemi tivera dois filhos que lá cresceram e casaram. Com um tempo, o marido morreu e depois os filhos, restando a mesma com suas noras. Elas amavam a sogra, esta que por tamanho zelo e altruísmo orientou que as mesmas regressassem às casas de seus pais enquanto que ela, velha, iria regressar à Canaã. Uma delas se foi depois de muita insistência de Noemi, mas Rute permaneceu ao seu lado e com ela foi ao país de origem da sogra como estrangeira.

Trabalhou duro para conseguir alimento para sua matrona e enfim casou-se com um parente distante de Noemi, que pela lei jurídica definida por Deus, em razão de tal ato, deveria recuperar à Noemi a posse de suas terras antes de migrar.


Houve muita boa vontade da parte de Rute, mas ao mesmo tempo ficou no ar se elas fizeram isso de maneira premeditada e calculista. Não sei! Não consigo julgar. É impostante que você leia por si só para se deparar com as nuances das recomendações que Noemi  faz a Rute em relação ao parente.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Leitura de Josué

Nunca imaginei que houvesse um capítulo na Bíblia que pudesse retratar tantas guerras como o conteúdo deste livro. Finalizado o Pentateuco, Josué é o primeiro dos Livros da História do Povo de Deus, um povo muito valente e guerreiro, por sinal.

Em nenhum momento, durante toda a narrativa da Bíblia, até este ponto, o povo de Israel esteve tão unido. Assim como eu suspeitava no livro de Deuteronômio, Deus planejava inspirar o seu povo para enfrentar uma batalha de tamanho horror que, qualquer coisa poderia ser pecado, menos MATAR quem não fosse do povo de Deus. Sangue, minha gente! Demais! Por alguns momentos eu havia esquecido que estava lendo a Bíblia e fiquei divagando no intertexto com histórias da mitologia grega e/ou da romana. A Guerra de Troia, por exemplo. Chega a ser muito parecido com um momento histórico, que de fato aconteceu, que foram as guerras promovidas pelos escravos do império romano entre 109 a.C - 71. a.C. em que Espártaco, líder da revolta, rebelou cerca de 100 mil escravos contra o império.

Josué, diferente de Moisés, além do dever de ser um líder religioso e inspirador, era antes de tudo um Marechal do Exército de Israel. Muito sobrecarregado! E mais uma vez a Bíblia contradiz o que muitos religiosos proclamam: "A Bíblia é a nossa salvação!", dizem eles. "Céus! Deus livrai-nos desse mal!", digo eu. Enfim, este livro me trouxe a reflexão seguinte:

― Durante muito tempo a igreja perseguiu aqueles que se recusaram a dobrar-se ou obedecer às suas leis.  Sempre se ouviu falar que religião e política caminharam de mãos juntas. ― Qualquer guerra vai ser motivada por razões políticas e isso é fato. ― A guerra é um fato político. ― A inquisição então, era portanto, um fato político também? ― "Cacem as bruxas!", "Matem todos os judeus!", fatos políticos que geraram guerras.

Não sei se para as pouquíssimas pessoas que vão ler este texto, será possível acompanhar meu raciocínio. Mas certa lógica não está bem evidente? Será que a Bíblia deveria ser mesmo tida como a "palavra de Deus"? Eu era criança e conseguia captar gigantescas contradições. Por exemplo, se pela lei geral de qualquer religião do mundo, provocar a morte de outro é tido como crime ou pecado, então, há falhas nessa lei de Deus descrita no Antigo Testamento. Se essas pessoas tinham que morrer para dar cumprimento aos propósitos de Deus, então que culpa teriam esses outros se não conheceram os ensinamentos desse suposto ser superior? Era Deus mesmo? ― me pergunto. E em Josué Deus orienta que se faça emboscadas para destruir a cidade. Deus condena que morram na fogueira aqueles que fugiram com mantimentos para não enfrentar a guerra. Deus orienta que se matem todos os habitantes. E esta é uma orientação recorrente no livro. O trecho seguinte, por exemplo, é usado com bastante repetição. (Js 11. 14) "Os israelitas saquearam os despojos destas cidades junto com o gado; quanto aos seres humanos, passaram-nos todos ao fio da espada, até sua completa extinção; não deixaram um ser vivo sequer." Deus é mais!

Enfim, é um livro sangrento e pungente que relata muita matança em nome de Deus e que a partir do capítulo 13 até o 24 vai tratar basicamente, depois dessa carnificina, da partilha das terras conquistadas entre as tribos de Israel para que ali povoem e cultuem esse seu Deus.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Leitura de Deuteronômio

O livro de Deuteronômio trata de uma série de releituras sobre leis supostamente sagradas e de certo teor impositivo. Com a chegada do povo de Israel à terra prometida, em algumas cidades ainda seria preciso tomar o território do povo que ali já habitava. Eles chegaram, mas a Canaã ainda não pertencia a eles. De modo que se fez necessário revisar as lições ensinadas e impostas pelo SENHOR para que servissem como fonte de inspiração ou até mesmo justificativa para as crueldades que este povo de Deus iria executar contra aqueles com quem se defrontariam. Ao passo que há bastante revisão de coisas já ditas em livros anteriores, Deuteronômio ainda complementa algumas questões jurídicas e religiosas com exemplos bem específicos e em certos momentos até bem bizarros. Enfim... O que compreendi foi que Deus os preparava para uma guerra bem sangrenta. Um exemplo disso se vê neste trecho: (Dt 3. 3) "E o SENHOR nosso Deus entregou também em nossas mãos Og, rei de Basã, com todo o povo, e nós o derrotamos, sem deixar nenhum sobrevivente." Outro: (Dt 18. 22) "Se o profeta falar em nome do SENHOR, e o que disse não acontecer nem se realizar, então é coisa que o SENHOR não disse. O profeta falou com presunção! Não tenha receio de matá-lo!" 

Contudo, há um momento de sensatez que não tenho competência para julgar se justo ou não. No capítulo nove é relatado que, das justificativas que levaram à decisão do Senhor Deus em expulsar daquelas terras o povo que lá habitava, seria não pela justiça ou imparcialidade do povo de Israel, mas em razão das maldades praticadas por essas nações que lá viviam.

Bem, nesse livro é revisado, por exemplo, Os Dez Mandamentos, a intolerância religiosa perante outras crenças, as normas alimentares caracterizadas como abominação, o apedrejamento daqueles que não servirem em holocausto o gado sadio, a dominação da mulher como objeto sexual e passível da poligamia masculina etc.

1- Sobre a intolerância religiosa, há muita contradição, pois se Deus afirma que ele é único e superior, porque cultivar então tanta ira contra quem vai servir a um outro deus? Não percebo divindade neste arranjo, mas apenas um ciúme antrópico. Deus é muito inseguro. Ele diz que se uma mãe perceber o filho dizendo que vai adorar a outro deus, ela deve ser a primeira a entregá-lo à morte. Eu compreendo que se é tão perigoso assim, então, na visão dele, talvez deva existir de fato outros deuses.
2- Sobre as normas alimentares caracterizadas como abominação, termo este empregado também anteriormente para condenar práticas de má compreensão social, ele traz uma listagem de todos os animais considerados como pecado o usufruto de sua carne e dentre eles, vejam só, está presente o coelho, o porco, o avestruz etc. Mas sobre os que habitam a água nenhum daqueles que não possuem barbatanas e escamas. Podemos considerar aí, por dedução, o polvo, a lula, o caranguejo, o camarão etc. Por que será que não vejo nenhum pastor ou nenhum padre condenando aqueles que se alimentam de tais carnes?
3- Sobre a dominação da mulher, sinto muito desconforto quando leio tais horrores na Bíblia e ainda ter de engolir que tais pregações são da ordem de Deus. É tanta injustiça que chega a ser bizarro. Como exemplo, as penitências. Se um homem caluniar uma mulher dizendo que esta não é virgem depois do casamento, ele pagará uma multa em moedas se estiver mentindo e ela deverá ser apedrejada se a acusação for verdadeira. Se um homem abusar sexualmente de uma mulher não comprometida, ele deverá pagar uma quantia ao pai da moça e deverá casar-se com esta. Se um homem morrer e deixar uma esposa sem filhos, o cunhado irá tomá-la para esposa para nela fazer um filho e dá a este o nome do irmão morto. E a pior, mais bizarra, insensata e cruel de todas: (Dt 25. 11-12) "Se dois homens estiverem brigando, e a mulher de um vier em socorro do marido, estender a mão e agarrar o outro pelas partes vergonhosas, tu lhe cortarás a mão sem dó nem piedade".
4- Uma coisa que prestei atenção e que me chamou bastante atenção neste livro foi quanto ao capítulo 28 que relata as Promessas de Benção a quem obedecer a Deus e as Ameaças de Maldição a quem desagradá-lo. É uma imprecação veemente que ao mesmo tempo em que é instrutora, chega a ser ingênua e maldosa. Mas o fato mais interessante é que Deus promete mais maldições que bençãos ao seu povo. Não há contestação religiosa que derrube o meu entendimento de que o Deus colocado neste Antigo Testamento seja um ser tirano. Promessas de Benção - 31 linhas; Ameaças de Maldição - 126 linhas.

Enfim, é um livro de revisão e complementação. Quanto a história, eles conquistam alguns territórios, dizimam nações, matam pessoas e ao final, temos a morte de Moisés que os conduziu desde Êxodo e passa então a liderança para Josué, seu sobrinho.

sábado, 21 de junho de 2014

Leitura de Números

O livro de Números vai relatar a chegada dos israelitas à terra prometida após os 40 anos de peregrinação pelo deserto. Contudo, creio que tal livro poderia ser resumido na seguinte frase: "Aos 40 anos após a fuga do Egito, Aarão morre, o SENHOR ordena um massacre e eles chegam a Canaã". Pronto!

É o livro mais monótono até então. Ele traz uma série de relatórios que não consegui captar o objetivo em discorre-los. Não há qualquer ensinamento edificador a não ser enumerar a grandiosidade de tributos, oferendas, jornadas e sacrifícios a um Deus que impõe o seu próprio merecimento. E é muita imposição! Creio para se falar de humildade tem que se ser, antes de tudo, humilde. E aqui as pessoas são tratadas como mercadoria. (Nm 3. 13) "Eles são meus. Eu, o SENHOR". Neste livro se dá continuidade às terríveis imolações que fariam qualquer veterinário sofrer de horríveis pesadelos. Continuo sem compreender qual é a lógica. Se Deus havia criado o mundo e tudo que nele existia, qual o sentido da satisfação dele nesses rituais sangrentos de morte dos animais? Se ele foi capaz de destruir tudo, uma vez, através do dilúvio, que prazer sádico é esse de queimar bois e ovelhas numa fogueira? Penso que há algo de errado aí. Talvez apenas uma dose de raciocínio. Eram imensos e numerosos esses holocaustos. O título do livro certamente é "Números" em razão específica do capítulo 7 e do 29 que relatam todos os tributos na forma de sacrifícios, sangue, vísceras e gorduras. Verdadeiras manadas levadas ao sacrifício em nome de Deus para queimarem na fogueira. São estas palavras, "um sacrifício consumido pelo fogo, de suave odor ao SENHOR", repetidas inúmeras vezes desde o livro de Êxodo. Há uma passagem no capítulo 11 em que o povo está descontente com Deus e com fome, pois não há carne para comer. Coitados! Foram obrigados a queimar tudo...

Em Números Deus se revela excessivamente tirano; de uma obstinação quase que infantil porque as coisas não aconteciam da forma como ele queria. Moisés aí acaba sendo, inclusive, mais sensato que o próprio Deus e o enche de elogios como quem mima uma criança para que esta considere o seu contra-argumento. Transcrevo aqui na íntegra tal diálogo:

(Nm 14. 11-19) E o SENHOR disse a Moisés: "Até quando este povo vai desprezar-me? Até quando vai recusar-se a crer em mim, apesar de todos os sinais que fiz no meio deles? Vou feri-los de peste e deserdá-los. De ti, porém, farei uma nação maior e mais forte do que eles". Moisés respondeu ao SENHOR: "Mas os egípcios sabem que de seu meio tiraste este povo com teu poder, e o dirão aos habitantes desta terra. Eles sabem que tu, SENHOR, estás no meio deste povo; que tu, SENHOR, te manifestas a ele face a face; que sobre eles vela tua nuvem; que de dia precedes numa coluna de nuvem e de noite, numa coluna de fogo. Se, pois, nações que ouvirem tais notícias a teu respeito comentarão: 'O SENHOR foi incapaz de introduzir o povo no país que lhes prometeu, por isso os massacrou no deserto'. Portanto, agora é que o meu Senhor deveria manifestar a grandeza de sua força, como tu mesmo disse: 'O SENHOR é paciente e misericordioso; suporta a maldade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração'. Perdoa, pois, a maldade do povo conforme tua grande misericórdia, da mesma forma como o suportaste desde o Egito até aqui".

No capítulo seguinte há um relato terrível em que Deus comanda um apedrejamento a um homem porque este estivera catando lenha num sábado, dia em que o trabalho é condenado. Uma ditadura religiosa. E sem contar a pregação de várias leis machistas. Falocratas ao extremo, onde a palavra da mulher só tem valor se for de acordo a do homem. Enfim, este livro me deu um pouco de sono. É tudo tão exagerado que chega mesmo a ser enfadonho e indigno de qualquer crédito.